20 de janeiro de 2017

O Fantasma da Concha

The Ghost in the Shell de Masamune Shirow foi publicado no Japão entre 89 e 90 e desde então é o marco máximo do cyberpunk na cultura japonesa colocando o mangá no mesmo patamar de clássicos do gênero como Neuromancer de William Gibson ou Snowcrash de Neal Stephenson. Mechas, robôs e computadores sempre estiveram presentes nos mangás de ficção científica mas foi Ghost in the Shell que abraçou definitivamente o cyberpunk em toda sua essência. Nas páginas do mangá o leitor encontrará próteses cibernéticas, interação com redes de computadores em um mundo onde todos estão conectados, intrigas corporativas e até mesmo uma matrix parecida com a vista em Neuromancer.


Parabéns à JBC pelo capricho na edição!
A edição nacional publicada recentemente pela Editora JBC em formato único traz a história da Major Motoko Kusanagi e seus companheiros da Seção 9, uma agência de segurança e inteligência que responde ao Ministério de Assuntos Internos. No mangá a Major e seus companheiros Batou, Togusa e Ishikawa trabalham como operativos especiais, aparentemente ligados ao próprio Ministro e que, ao final do primeiro capítulo, acabam formando a equipe da recém formada Seção 9 sob comando do misterioso Aramaki, o "cara de macaco". Essa é uma das muitas diferenças entre o mangá e o anime de 95 dirigido por Mamoru Oshii: no filme Motoko e seus companheiros são apresentados como membros da Seção 9 desde o princípio e não contam com o auxílio dos fuchikomas, mechas que poderiam ser descritos com "tanques aracnídeos" operados por uma inteligência artificial que só foram aparecer nas telas no anime serializado Stand Alone Complex. Apesar de terem algumas sequências em comum, o anime adapta muito do mangá mantendo apenas a essência da trama em torno do enigmático Mestre dos Fantoches.

A Major Motoko Kusanagi em todo seu esplendor.
Alternando capítulos com espionagem, terrorismo e intrigas políticas/corporativas, Masamune vai apresentando gradativamente um futuro onde implantes cibernéticos e inteligências artificiais são parte do cotidiano de todos. A protagonista Motoko Kusanagi tem o corpo praticamente todo composto por elementos cibernéticos bem como seus companheiros da Seção 9, exceto Togusa que apesar de ter um link cerebral como todos os demais, tem seu corpo original intacto. Esse elemento de humanidade em meio à artificialidade acaba orientando a trama, desenvolvendo várias divagações filosóficas do autor sobre o que é a vida e a existência da alma com uma boa dose de fan-service, claro. Entre momentos de descontração ou pura ação e adrenalina, o autor acaba inserindo pequenos questionamentos existenciais que aos poucos vão se tornando grandes discussões ao longo da narrativa, algo que enriquece e muito a escrita e o traço de Masamune Shirow.


Uma das muitas sequências de ação.
O futuro conectado de Ghost in the Shell ainda distingue limites como nações e corporações mas a sensação que se tem no decorrer das páginas é que essa conectividade toda torna esses conceitos obsoletos dentro de um mundo digital. As intrigas políticas se limitam ao relacionamento entre países dominantes e dominados, intrigas corporativas e corrupção, elementos que mostram a degradação das instituições públicas, dependentes de limitações físicas e procedimentos burocráticos. A "tecnocracia" é um elemento constante no mangá e em muitos momentos, corporações e membros do governo conspiram em favorecimento próprio. Não existe nada mais cyberpunk que instituições conspirando contra o indivíduo em benefício próprio!


O futuro cyberpunk de Ghost in the Shell em toda a sua grandeza.
The Ghost in the Shell é uma obra essencial ao cyberpunk e é também um marco na cultura japonesa. Outros mangás como Gunnm de Yukito Kishiro também trazem ciborgues em um futuro distópico mas ainda estão distantes do cyberpunk tradicional, algo que Ghost in the Shell incorporou de vez à cultura oriental. Animes como Lain, Ergo Proxy, ou mesmo filmes como Matrix trazem vários dos elementos vistos em Ghost in the Shell. O mangá ainda teve duas sequências escritas e desenhadas por Shirow: Man-Machine Interface e Human Error Processor. Resta esperar que a JBC continue o excelente trabalho nesse volume e publique as sequências, ainda inéditas por aqui e que desenvolvem ainda mais a trama apresentada em Ghost in the Shell. Quem sabe eles também não tragam pro Brasil outros mangás de Shirow como os excelentes Dominion e Appleseed? #ficaadica


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\\*observacao1
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Observação sobre as notas do autor.
- Evite as notas do autor durante leitura a todo o custo! Elas não acrescentam nada ao desenvolvimento da trama, quebram o ritmo da leitura e ainda confundem o entendimento da narrativa. Ler as notas posteriormente, com calma, visualizando a cena, permite perceber a criação de cada conceito imaginado pelo autor na construção do mangá, mesmo quando os conceitos são fictícios. É como assistir um filme com comentários, aí as notas do autor são o destaque. Uma pena o aviso pra evitar as notas estar junto com o posfácio da edição nacional.
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\\*obervacao2
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- Apesar do fan-service no mangá adulto ser pensado no público masculino, não consigo ficar desconcertado com a sensualização constante das personagens femininas do mangá. Em vários momentos a Major aparece em roupas mínimas e poses sensuais. Outras ciborgues aparecem vestindo lingerie ou em situações sexualizadas, nem um pouco naturais ou justificáveis dentro do contexto da obra, salvo quando fica subentendido que são androides criadas com esse propósito aos seus donos. Por que uma ciborgue precisa necessariamente usar lingerie? Nesse aspecto considero muito mais interessante a adaptação pro anime de 95 que justifica a nudez da Major com a camuflagem termo-óptica. No anime a pele da Motoko tem essa tecnologia e ela só funcionará enquanto ela estiver nua, ou seja, existe o fan-service mas ele tem ao menos uma justificativa coerente. Em tempos de discussão de gênero, isso acaba ganhando uma relevância negativa.
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.